Damas Brasileiras: o Que Muda em Relação às Outras

A mesma palavra, “damas”, nomeia jogos diferentes no Brasil, em Portugal e na Espanha. Todos parecem iguais na montagem e deixam de ser iguais na primeira captura. Este texto põe as damas brasileiras ao lado das internacionais, das portuguesas, das espanholas e das filipinas, e mostra regra por regra onde cada uma se separa.

Tudo o que está abaixo corresponde às regras que os tabuleiros deste site realmente aplicam, e não a um resumo aproximado.

O que são as damas brasileiras

Tabuleiro de 8×8 com jogo apenas nas 32 casas escuras, 12 pedras por lado nas três fileiras mais próximas de cada jogador, brancas abrindo. A pedra anda uma casa na diagonal para a frente e captura nas quatro diagonais, para a frente e para trás. Comer é obrigatório, e entre as sequências possíveis é obrigatório jogar uma das que comem o maior número de peças, sem nenhum critério adicional de desempate. A pedra que atravessa a última fila no meio de uma captura continua pedra e só é coroada se a sequência terminar ali. A dama é voadora.

Captura para trás, dama voadora e maioria obrigatória: essa combinação coloca as damas brasileiras no ramo internacional da família, e não no ramo espanhol de onde vem a língua. É o motivo pelo qual a versão brasileira costuma ser descrita como o jogo internacional num tabuleiro de 64 casas.

Damas brasileiras × damas internacionais

Esta é a comparação mais fácil, porque as diferenças são poucas e todas de escala.

As damas internacionais usam um tabuleiro de 10×10 e 20 pedras por lado, distribuídas em quatro fileiras. As brasileiras usam 8×8 e 12 pedras em três fileiras. Fora isso, a mecânica coincide quase inteira: a pedra captura para a frente e para trás nas duas, a dama voa nas duas, a maioria de peças é obrigatória nas duas e nas duas a pedra que atravessa a última fila no meio de uma captura continua como pedra.

O que muda de verdade é o volume de cálculo. Vinte pedras num tabuleiro de cem casas produzem sequências de captura bem mais longas, e uma partida inteira leva mais tempo do que no tabuleiro de 64 casas.

Há ainda uma diferença de prazo: as internacionais empatam por falta de progresso depois de 25 lances de cada lado, contra 40 nas brasileiras, e a federação internacional codifica contadores extras para finais com pouquíssimas peças. Quem quiser experimentar o tabuleiro grande encontra-o em International Draughts no Checkers Online; aqui só rodam as versões de 64 casas.

Damas brasileiras × damas portuguesas

Aqui as diferenças deixam de ser de escala e passam a ser de regra. São quatro, e cada uma muda a forma de jogar.

A primeira diferença, e a mais visível, é que a pedra portuguesa come só para a frente. No tabuleiro brasileiro nenhuma peça está segura por estar atrás de outra; no português, está. Cadeias de captura montadas de trás para a frente, comuns no Brasil, simplesmente não existem em Portugal.

A coroação portuguesa interrompe a captura. Uma pedra que chega à última fila no meio de uma sequência para ali, vira dama e a jogada acaba, mesmo que houvesse outro salto disponível. No Brasil ela atravessa e continua comendo, e só é coroada se parar lá no fim.

Há também um desempate que só existe do lado português. Havendo duas sequências que comem o mesmo número de peças, é obrigatório jogar a que come mais damas. As damas brasileiras não têm esse critério: sequências de igual tamanho são todas legais, não importa o que elas comem. É um detalhe que se troca com facilidade ao descrever os dois jogos, e vale conferir duas vezes.

O prazo de empate português é metade. Vinte lances de cada lado sem captura e sem movimento de pedra bastam para empatar, contra 40 no tabuleiro brasileiro. E existe ainda a Forçada, uma regra que não tem equivalente aplicado no lado brasileiro: três damas contra uma dama têm 12 lances de cada lado para vencer, ou a partida empata.

O tabuleiro português também se monta espelhado, com a casa clara no canto inferior esquerdo. As peças continuam andando igual, mas a vista confunde na primeira partida. Ele está disponível em damas portuguesas.

Damas brasileiras × damas espanholas

As damas espanholas ficam do mesmo lado da família que as portuguesas, e por isso a lista de diferenças em relação ao Brasil é quase a mesma: pedra que come só para a frente, coroação que interrompe a sequência, desempate pelo maior número de damas comidas e tabuleiro espelhado.

Espanholas e portuguesas separam-se entre si em dois pontos. O prazo de falta de progresso nas espanholas é de 40 lances de cada lado, igual ao brasileiro e o dobro do português. E as espanholas não têm nenhuma Forçada codificada: o final de três damas contra uma só empata pelas regras gerais.

A tradição espanhola é também a mais antiga documentada das três. O primeiro livro conhecido sobre o jogo foi publicado por Antonio de Torquemada em Valência, em 1547, e a Board Game Geek situa a prática do jogo espanhol já por volta de 1400. São duas coisas diferentes, uma prática atestada e um primeiro manual impresso, e não convém confundi-las.

Damas filipinas: as mesmas regras, o tabuleiro invertido

Aqui a lista de diferenças é curta. As damas filipinas têm exatamente as mesmas regras das brasileiras: captura para trás, dama voadora, maioria obrigatória sem desempate, promoção só no fim da sequência, mesmo prazo de empate. A única coisa que muda é a orientação do tabuleiro, que lá se monta espelhada. Dois nomes nacionais, um jogo só.

A tabela

RegraBrasileirasPortuguesasEspanholasInternacionais
Tabuleiro e pedras8×8, 128×8, 128×8, 1210×10, 20
Quem começaBrancasBrancasBrancasBrancas
Pedra come para trásSimNãoNãoSim
Alcance da damaVoadoraVoadoraVoadoraVoadora
Critério de capturaMaior número de peçasMaior número de peças, depois mais damasMaior número de peças, depois mais damasMaior número de peças
Promoção no meio da capturaContinua como pedraPara e coroaPara e coroaContinua como pedra
OrientaçãoComumEspelhadaEspelhadaComum
Empate por falta de progresso40 lances de cada lado20 lances de cada lado40 lances de cada lado25 lances de cada lado
Regra de final codificadaNenhumaForçada: 3 damas contra 1, 12 lancesNenhumaContadores da federação internacional

De onde vêm as regras brasileiras

A codificação nacional é do século XX: a Board Game Geek data em 1930 a organização das regras pela Confederação Brasileira de Jogo de Damas. O mecanismo, porém, é muito mais velho. O pesquisador Mats Winther identifica o mesmo conjunto de regras como Minor Polish draughts, jogo já documentado no século XVI e popular na Holanda, especialmente em Amsterdã.

As duas datas não se contradizem: as regras são antigas e circulavam pela Europa muito antes de terem um nome brasileiro; o nome e a estrutura federativa é que são recentes. Na literatura de referência o mesmo jogo aparece ainda como “64-square Polish”.

O que dá para jogar aqui

Deste conjunto, dois tabuleiros estão jogáveis neste site: as damas brasileiras, no tabuleiro principal, e as damas portuguesas. As regras brasileiras completas, com os casos limite, estão em regras do jogo de damas, e quem está começando encontra o passo a passo em como jogar damas.

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