Como Jogar Damas: Guia Completo para Começar
Quase todo mundo aprendeu o jogo de damas vendo alguém jogar, e é por isso que quase todo mundo aprendeu com alguma regra errada. O objetivo aqui é diferente: montar o jogo do zero, com cada regra dita por inteiro, na versão brasileira, a que está codificada no tabuleiro deste site.
Não precisa saber nada antes. Se você já joga, pule direto para os princípios de jogo, no fim.
O tabuleiro e a montagem
O jogo usa um tabuleiro de 64 casas, oito por oito, alternadas entre claras e escuras. Só as 32 casas escuras entram na partida. As claras ficam vazias do primeiro ao último lance, e nenhuma peça pisa nelas em nenhum momento.
Cada jogador recebe 12 pedras e as coloca nas casas escuras das três fileiras mais próximas de si. Isso ocupa 24 das 32 casas escuras e deixa as duas fileiras centrais livres. São elas que dão espaço para o primeiro lance.
Na montagem brasileira, o canto inferior esquerdo de quem joga com as brancas é uma casa escura. Se o seu canto inferior esquerdo estiver claro, o tabuleiro está espelhado; é assim que se montam as damas portuguesas, e vale a pena reparar nisso antes de começar. As brancas jogam primeiro.
Como a pedra se mexe
A pedra, que é a peça comum ainda não coroada, faz duas coisas bem diferentes conforme esteja andando ou comendo.
Andando, ela avança exatamente uma casa na diagonal, sempre para a frente, sempre para uma casa escura vazia. Nunca recua e nunca anda duas casas de uma vez.
Comendo, ela salta nas quatro diagonais. Pula por cima de uma peça adversária que esteja na casa vizinha e cai na casa logo atrás dela, que precisa estar vazia. E aqui vem a regra que mais confunde quem aprendeu damas em outro país: nas damas brasileiras a pedra come também para trás, na direção do próprio campo.
Guarde essa assimetria, porque ela governa o jogo inteiro. Uma peça sua avança devagar e num sentido só, enquanto o alcance dela para capturar cobre as quatro diagonais o tempo todo. Não existe peça segura por estar “atrás” de outra.
Comer é obrigatório
Não é uma questão de estilo: se existe captura no tabuleiro, você é obrigado a capturar. Enquanto houver salto disponível, o jogo não aceita nenhum lance simples.
Duas consequências práticas.
A primeira é que a sequência continua. Depois de saltar uma peça, se a mesma pedra tiver outro salto pela frente, ela precisa saltar de novo, e de novo, até acabarem os saltos. Um lance só termina quando a peça que está capturando não tem mais nada para comer.
A segunda é a regra da quantidade. Quando existe mais de uma sequência possível, você tem de jogar uma das que comem o maior número de peças. Uma captura dupla fica proibida enquanto existir uma tripla no tabuleiro. E é só isso: se duas sequências comem três peças cada uma, ambas são legais, não importa se uma delas come damas e a outra só pedras. As damas brasileiras não têm critério de desempate por damas comidas. Quem tem esse critério são as portuguesas e as espanholas.
Falta um detalhe que decide muitas sequências longas: as peças saltadas continuam no tabuleiro até a jogada acabar. Elas só são retiradas no fim. Enquanto isso, seguem ocupando as suas casas e bloqueando caminhos, e é por isso que nenhuma peça pode ser saltada duas vezes no mesmo lance.
Como uma pedra vira dama
A pedra que termina o lance parada na última fila do adversário é coroada e vira dama.
A palavra “termina” carrega a regra inteira. Se a pedra apenas atravessa a última fila no meio de uma captura e ainda tem saltos disponíveis, ela não é promovida: continua como pedra, segue comendo e pode acabar o lance em qualquer outro ponto do tabuleiro. Só vira dama se a sequência de fato parar ali.
Isso muda o cálculo antes de começar uma captura longa. Vale olhar onde a pedra vai parar, e não só quantas peças ela come pelo caminho: às vezes a captura menor é a que rende a coroa. Quando a regra da quantidade obriga a jogar a sequência mais longa, você nem chega a escolher.
O que a dama faz
A dama é voadora, e a diferença de força em relação à pedra é enorme.
Como lance simples, ela desliza por quantas casas vazias quiser ao longo de uma diagonal, para qualquer um dos quatro lados. Como captura, ataca à distância: percorre a diagonal até encontrar uma peça adversária que tenha pelo menos uma casa livre logo atrás, salta essa peça e para em qualquer casa vazia depois dela, na mesma diagonal.
Repare que ela escolhe onde parar depois do salto. Uma casa a mais ou a menos deixa a peça seguinte ao alcance ou fora dele, e é aí que se decide se a sequência continua. A obrigação de comer o máximo vale para a dama do mesmo jeito, então ela também tem de achar a linha mais longa.
A sua primeira partida
Uma sequência razoável para quem está começando:
- Abra com uma pedra em direção às casas centrais. É de lá que uma pedra alcança mais casas, e a partida costuma se decidir nesse meio de tabuleiro.
- Mexa poucas pedras diferentes no começo. Cada pedra que avança deixa um buraco atrás de si, e buracos são por onde as damas do adversário entram mais tarde.
- Antes de qualquer lance, olhe se você está entregando captura. Como comer é obrigatório, uma peça deixada em posição atacada vai ser comida, queira o adversário ou não.
- Antes de comer, conte a sequência inteira até o fim. A maioria obrigatória pode empurrar você para uma linha que termina em posição ruim, e você não vai poder desistir no meio.
Princípios que decidem partidas de iniciante
A obrigação de comer trabalha para os dois lados, e dá para usá-la a seu favor. Se você oferece uma peça, o adversário tem de comê-la, e é você quem escolhe de que casa. Muitas combinações começam com um sacrifício cujo único propósito é tirar uma peça inimiga do lugar onde ela estava atrapalhando.
Nenhuma peça está protegida por estar atrás. Com a pedra que come para trás, uma peça adversária encostada nas suas costas ameaça igual a uma que está à frente. Confira as quatro diagonais de cada peça sua, não só as duas da frente.
Peça travada conta como peça perdida, ou quase. Ganhar é comer tudo do adversário ou deixá-lo sem lance legal na vez dele, e um jogador com cinco peças completamente presas já perdeu a partida, mesmo com material no tabuleiro.
Uma dama vale bem mais que uma pedra. Ela cobre a diagonal inteira nos dois sentidos e come à distância. Trocar duas pedras para conseguir a primeira dama costuma compensar, sobretudo em posições abertas, onde há diagonais longas livres.
E há prazo para converter vantagem. Se ninguém progride, a partida empata: por repetição tripla da mesma posição com o mesmo jogador na vez, ou depois de 40 lances de cada lado sem nenhuma captura e sem nenhum movimento de pedra. Quem está ganhando precisa fazer alguma coisa acontecer dentro desse limite.
O passo seguinte
O texto acima cobre o suficiente para jogar sem cometer erro de regra. Para o regulamento completo, com os casos limite e as duas leis de empate escritas por extenso, veja as regras do jogo de damas. Se quiser entender por que a versão brasileira é diferente das damas portuguesas, espanholas e internacionais, o artigo damas brasileiras: o que muda coloca as quatro lado a lado.
E a melhor forma de fixar tudo isso é jogar. O nível Iniciante do computador existe exatamente para a primeira partida.
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